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Arte e CulturaJornal Gente da Gente

Irmãs Botelho

Conceição

Até a saudade, que dizem que é a única coisa que o vento não leva, tinha lhe sido roubada antes mesmo de nascer. Sua vida, ridícula, mais parecia um daqueles retratos antigos em preto e branco, sem cor, sem vida. Conceição Botelho se sentia sem passado, presente e futuro. Apenas acordava e, levada pelas horas que se arrastavam como correntes pesadas, tomava o chá com a broa abatumada ou gordos pedaços de polenta assados na chapa do fogão à lenha e, seguia a mesmice. Dessa forma, repetiam-se os dias, os meses, os anos; numa eternidade sem fim.

A velha casa de madeira, nunca pintada, parecia uma tapera abandonada. No jardim, cercado pelas sebes, as três pedras deformadas vigiavam como as três irmãs solteironas que só viram a vida pelas pequenas frestas das janelas e por cima das trepadeiras.

Nhá Conceição era a última das irmãs Botelho, que solteiras nasceram, viveram, se é que se pode se chamar vida os anos que por aqui estiveram e, voltaram ao pó; de onde nunca deviam ter emergido.

Sem sonhos e débeis, só conheceram a vida através das roupas lavadas, soberano ofício que aprenderam. Na velha tina, a cada peça molhada, esfregada e torcida, imaginavam o mundo lá fora. Assim, somente quando uma nova trouxa de roupa adentrava o portão, as cores roubavam a cena da escuridão, companheira da última lavadeira da região. Por dó e piedade, algumas poucas pessoas lhe davam serviço; as máquinas de lavar roupas lhe roubaram até o ofício, única coisa que talvez tivera na vida.

A memória lhe trouxe à tona, o dia que, tomada por seus desvarios e de uma felicidade diabólica, destruiu as vestes da filha da dona do armazém da esquina; por acreditar que os exibidos vestidos riam dela. Um resquício de espírito sumarento tentou despertar na “encalhada” moça. Coberta apenas por vestes medonhas, tacou fogo nos coloridos vestidos e, durante o choro que escapou, passou as cinzas pelos cabelos gordurosos, sebentos e escarnecidos. Sentiu-se viva pela primeira vez! Perdeu a cliente e, só não perdeu mais, porque mais nada tinha.

O passeio, derradeiro, fora na igreja, aos domingos e Dias Santos; mas somente quando crianças. Quando as regras desceram, elas foram proibidas de sair pelo pai. Confinadas nas poucas paredes, ficaram. A comida grosseira, era feita no antigo fogão à lenha que, como seus dentes podres, soltava os tijolos com o tempo.

Agora, que todos já se foram, era obrigada a ir à venda, como para comprar fazenda para um novo vestido de chitão. Aprendera a costurar com a mãe, na antiga máquina de costura. Livros, cadernos e lápis não estiveram ao alcance das irmãs, a não ser a sujeira alheia. Dessa forma, não conseguiram romper os cadeados que as aprisionavam. Somente as roupas passeadoras, das outras mulheres, foram o que as calejadas mãos conheceram. Que vida em vão!

Júlia

Lá fora, longe do fogão à lenha, ela tiritava de frio. A geada escondia o caminho até o poço e cobria os telhados. Suas pernas, roliças, logo ficaram roxas, mesmo por baixo do feio saiote e anágua. Sentiu seus pés encarangarem dentro da botina seca, mas precisava ir até o poço encher as tinas e gamelas.

Júlia Botelho era gorda e baixa, quase achatada. Sendo a irmã mais velha, carregava nos ombros e braços a responsabilidade de iniciar o ofício de lavadeiras. Quando descia a corda até o fundo do poço, na volta, às vezes, o infeliz do balde, batia nas laterais e, chegava pela metade. Assim não rendia! A mãe e as duas irmãs mais novas, logo se juntariam a ela para ensaboar as peças delicadas das outras moças assanhadas. Estavam com as entregas atrasadas devido à chuva dos dias anteriores. Sem entrega, sem dinheiro.

A camada branca de geada, aos poucos, foi derretendo com o calor do sol, criando uma camada esfumaçada; era como se todas as chaminés da cidade estivessem acordadas. Recostou- se em um pé de gabirobeira, procurando alívio para sua dor nas costas, e deu um suspiro de meia satisfação. Mas o pior mesmo era o esporão. Os calcanhares gemiam pelo peso do seu corpo. Suas pernas grossas doíam também, pois desde criança ajudava a mãe a volver a terra para plantar no quintal, de onde tiravam quase tudo que precisavam para sobreviver. Passou as mãos pelos cabelos indomados que lhe causavam tanto desgosto, e suspirou:

– Que dor infernal! Odeio esta crina!

A primeira entrega seria para Dona Cotinha. O gosto dos bolinhos de pão dava água na boca! Eram poucas as vezes que comia m pão branco. Os bolinhos, cortesia da boa senhora, vinham serelepes no bolso do avental da mãe. Que benção de mulher!

Enquanto as três esfregavam e batiam as peças, Júlia Botelho foi abrir outra trouxa. Eram as roupas de Sinhá Antônia, que morava no quarteirão de cima.

Desfez o nó e eis que um vestido vermelho, rubro escarlate, aceso, saltou aos seus olhos.

– Que menina mais leviana, impura!

Mais uma vez, um fio de emoção indomada escapou-lhe da boca, quase banguela, causando espanto nas outras três. Das irmãs, somente ela era desbocada, era sempre necessário lhe podar as arestas. Enquanto Conceição Botelho e Tereza Botelho, com suas mentes apáticas, de nada reclamavam! Com sofreguidão, tudo aceitavam daquela vida primitiva onde os domingos eram ocos e se arrastavam devido ao isolamento.

A mãe olhou-a com ar de reprovação e tomou-lhe das mãos. Lavou em separado e pôs escondido para secar.

Júlia Botelho voltou seu olhar triste para suas vestes de chitão, sem rendas, sem cor. A saia chegava aos pés. Na época, ainda considerados símbolos de castidade, deveriam estar bem protegidos de olhares curiosos e cobiçados.

Com o passar dos anos, das décadas, as três foram se tornando cada vez mais ariscas, como bichos do mato. A mocidade dava lugar para uma velhice prematura e elas murcharam como frutas velhas.

A mãe rosnou novamente e Júlia Botelho, já com os pensamentos em ordem, se arrastando, foi esticar as roupas para secar.

Tereza

Tereza Botelho era a caçula, talvez por isso, era a mais franzina, minguada. No entanto, seus pensamentos eram tão selvagens como o andar de um animal acuado. Seu nome não foi escolhido em vão, Tereza! Alguém conhece o significado do nome Tereza?

Na pequena casa, quase um casulo, ardilosa, não aceitava as condições de sua vivência que era nascer, crescer e morrer; e só! Não discutia, não contestava. Astuta, um tanto cáustica, fingia aceitar. Dava menos problema. Desse modo, tinha, secretamente, seus pensamentos livres como o vento nas planícies e, podia fantasiar.

Enquanto Júlia e Conceição, na lida, batiam as roupas e punham na grama para ficar quarando, ela  cava à sombra, engomando e passando.

Pôs um grosso pau de bracatinga na fornalha, precisava dos carvões em brasa para esquentar o ferro. Espiou por uma frincha da parede, e viu as três atracadas. Coitadas, só entrariam com o pôr do sol. Lasciva, movimentou-se pelo casebre escuro como um fantasma. Já no quarto dos pais, em frente a uma mobília que destoava do resto da casa, parou! Ali estava ele, o espelho. Era nele que ela adentrava para fugir do breu que era a sua vida.

Olhos verdes que lhe davam o aspecto de uma fera indomável, tinha em seu rosto, cravada, a cor da esperança; por isso a capacidade de sonhar.

Bochechas rosadas pela quentura do fogo, alisou os cabelos e prendeu-os em um coque. Nenhum adorno, apenas aqueles olhos de moça solteira que ainda sonha. Estava radiante, o vestido rubro escarlate, vermelho vivo, da cliente, lhe caíra bem. Sentiu seu corpo vivo e um calor lhe desceu pelo colo.

Apesar da idade avançada, seu coração, sedento, ainda queria amar. Então, viu-se sendo raptada por um homem estranho, em um cavalo branco. Leviana, sentiu o medo, sentiu as carícias, sentiu o desejo. Por alguns minutos, gozou sua fuga da realidade, não era mais só uma mulher arquivelha. Satisfeita, recolheu a sensação de sentir o sangue circular em suas veias e, guardou-a em suas memórias.

Foto: Joelma e Rafael Fotografia

JELE CABRAL: 

“Fênix: forjada a ferro e fogo. Esposa, mãe e professora. Aprendiz de escritora”.

Na página do Facebook intitulada “Textos Jele Cabral”, você pode ler diversos contos, como este que segue publicado em nossas páginas.

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