O futuro que estamos construindo
Recebi um convite de minha amiga Marcia Camargo Zinco para escrever algumas linhas sobre o Dia da Mulher.
Confesso que, inicialmente, fiquei preocupada, pois este é um tema que já foi bastante exposto, brilhantemente, por muitas mulheres, a partir de todas as perspectivas!
Além disso, não aprecio muito a forma como ele é celebrado entre nós, como se fosse uma data somente para divinizar as mulheres, enviar flores, cartões! E só!
Na verdade, todas nós gostamos de flores, elogios, chocolates e outros agrados, mas buscamos muito mais!
Necessitamos de políticas públicas adequadas para nos proteger, e às nossas filhas e netas. A violência doméstica sempre existiu e, infelizmente, aprofundou-se com a pandemia da Covid. É uma grande preocupação!
Queremos respeito e oportunidades de trabalho, de aprendizagem, de representatividade, com equidade.
Em uma breve pesquisa na internet, encontrei o relatório da ONU Mulheres, o qual apresenta dados sobre o mundo e as mulheres. As informações são difíceis:
- aproximadamente meio bilhão de mulheres e meninas, com 15 anos ou mais de idade,
são analfabetas; - mais meninas do que meninos estão fora da escola;
- as mulheres jovens, entre 25 e 34 anos, têm 25% ou mais chances de viver em extrema
pobreza do que os homens.
Portanto, a pobreza tem o rosto da mulher!
Contudo, este mesmo relatório, nos mostra que tivemos avanços que nos custaram longas batalhas, mas as vitórias, inexoravelmente, vem se impondo junto à comunidade.
No Brasil, a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, criou mecanismos e instrumentos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher e é uma dessas grandes conquistas que tivemos.
Essa lei foi resultado de mobilizações da sociedade civil organizada, mas também do reconhecimento do Estado Brasileiro de que a violência doméstica tem impacto social e deve ser punida.
O reflexo da aplicação da lei durante esses anos é claro na comunidade, com o recuo dos números de casos, embora os efeitos mais efetivos demorem a ser sentidos a longo prazo, com a mudança cultural que a lei vem impondo.
Outro avanço significativo foi com a Lei do Feminicídio, sancionada em 2015, que alterou o Código Penal para constar o crime de homicídio de mulheres, simplesmente por ser mulher, como um agravante.
Vale lembrar que em Irati, há alguns anos, tivemos vários casos de violência contra mulheres de grande repercussão, inclusive feminicídio. Mulheres e homens da cidade saíram às ruas, numa manifestação inédita, capitaneadas por líderes mulheres, exigindo providências.
Foi um movimento muito importante na história da luta das mulheres em Irati e que, trouxe um recuo dos números e culminou com a implantação, por parte do município, de uma Casa de Passagem para mulheres vítimas de violência, com todo o apoio da Guarda Municipal, treinada para essa tarefa e com servidoras mulheres para atender as vítimas.
Outro ponto importante e que colabora para que os avanços do fortalecimento das mulheres ocorram é a existência de mulheres em posição de destaque.
Atualmente, temos inúmeros exemplos de mulheres que se destacam e nos ajudam a chamar a atenção para as pautas e discussões que, de outra forma, não seriam abordadas.
Temos, hoje, várias líderes nas diversas esferas, estadual e federal, como a deputada Leandre Dal Ponte, que abriram o caminho do universo da política em Brasília, dominado pelos homens.
Afortunadamente, temos aqui duas vereadoras eleitas em nossa Câmara Municipal, mudando radicalmente o enfoque e as discussões dos problemas locais, inclusive, com a criação da Procuradoria da Mulher, bandeira também da deputada Leandre.
Ainda há de se destacar as inúmeras brilhantes profissionais nas mais diversas áreas como enfermeiras, médicas, professoras, policiais, dentistas, advogadas, empresárias, serventes, funcionárias públicas, donas de casa, empregadas do lar e tantas outras, não menos importantes, que com sua postura e participação fortalecem a sororidade entre as mulheres o que denota a importância da força de trabalho feminino e o quanto a união de todos é fundamental.
Cabe ressaltar, todavia, que as advogadas como eu, com mais de 37 anos de profissão, trabalhando no atendimento das famílias, temos tido papel relevante dentro da comunidade, como atores imprescindíveis em defesa dos direitos de gênero.
Sem as corajosas advogadas e muitos colegas advogados, também, nossa comunidade não teria alcançado os avanços que vivenciamos.
Quero dizer, ainda, que o fato de estar hoje atuando como vice-prefeita do município de Irati me traz uma perspectiva muito mais realista das nossas dificuldades, e na condição de advogada, me faz acreditar que a violência doméstica, de longe o maior problema que nós mulheres temos, tem que ser tratado de forma holística, apoiando-se emocional e psicologicamente as partes, homem e mulher, buscando o equilíbrio da família e da relação familiar, pois não é só a punição pura e simples, a prisão do agressor, que trará a resolução deste dilema.
Por esta perspectiva, da ação do poder executivo, quero dizer que temos trabalhado em outros aspectos como a implantação de cursos para formação para mulheres, apoiando associações voltadas a esse propósito, a fim de diminuir o impacto do desemprego dentro do município.
Também tenho muita preocupação com a volta das atividades, pós-pandemia, com a oferta de vagas em creches e escolas. Salientando-se que temos duas creches e uma escola em fase final de construção, pois a existência dessas vagas é um dos pilares que possibilita às mulheres buscarem o trabalho.
Ao chegar até aqui, confesso que fiquei orgulhosa do que nós, mulheres brasileiras, notadamente, as iratienses, vêm construindo e, gostaria que você soubesse que existe dentro de si uma força capaz de mudar sua vida, basta que lute e aguarde um novo amanhecer.
Enfrentamos brava, mas serenamente, as adversidades e juntas, de mãos dadas, buscamos um futuro cada vez melhor!
















