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Josué Corrêa Fernandes: uma história de amor e dedicação a Prudentópolis

Descendente de espanhóis e portugueses, Josué Corrêa Fernandes, o Dr. Zito, nasceu em Prudentópolis e dedicou sua vida ao desenvolvimento da cidade. Como prefeito, vereador e magistrado, foi pioneiro em várias iniciativas, incluindo a modernização da infraestrutura local e a promoção da mecanização agrícola. Sua administração marcou o início de uma nova era de progresso para o município. A Revista Gente, nesta edição especial em comemoração a Prudentópolis, traz um relato desse grande homem e suas contribuições para o município.

“Meus avós paternos, Manoel Rodriguez Fernandez, nascido em Pontevedra, na Galícia Espanhola e Beatriz Marçal Fernandez, de Araucária (PR), instalaram-se em 1905 na então Vila de São João do Capanema que, um ano depois, adquiriria o status de Município e cidade com o nome de Prudentópolis. E os avós maternos, José Correia dos Santos e Francisca Salerno dos Santos, também radicados na antiga vila de Firmo de Queiroz, casaram-se nessa mesma localidade, em 04 de junho de 1906, dois meses antes da emancipação.

Sou o oitavo dos nove filhos de José Rodriguez Fernandez e de Virgínia Correia Fernandez, também nascidos e radicados em Prudentópolis. Do lado de meu progenitor, descendo de espanhóis que imigraram para o Brasil e, da parte de minha mãe, provenho de troncos portugueses que, há 400 anos, fizeram do Brasil a sua pátria; e que, nos anos 1700, foram os primeiros desbravadores e habitantes dos Campos Gerais e da cidade de Ponta Grossa, cujo território encontrava-se dentro das sesmarias de Diogo da Costa Rosa e de seu genro Domingos Martins Fraga, meus ancestrais em linha direta.

Meu nascimento se deu em Prudentópolis, no dia 30 de janeiro de 1947. Fui casado com Lílian Helena Gomes Fernandes, já falecida, e tive três filhos: Fabíola, também falecida, Paulo de Tarso e Felipe César.

Em linhas gerais, fiz meus primeiros estudos nas escolas da cidade – Grupo Escolar Barão do Rio Branco, Escola de Aplicação Coronel José Durski, Colégio Imaculada Virgem Maria, Escola Técnica de Comércio, em cujos educandários, mais à frente, também fui professor. Terminado o ensino básico, ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), quando, paralelamente, fiz o Curso de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR). Advoguei muitos anos em Prudentópolis e nas comarcas vizinhas.

No período de 1969/1972, exerci o cargo eletivo de vereador, ocupando a Presidência da Câmara no primeiro biênio. Posteriormente, durante os anos de 1973 a 1976, desempenhei as funções de prefeito e, após o cumprimento desse mandato, ingressei, por concurso, nos quadros da Magistratura do Estado do Paraná (fui juiz de direito em Castro, Curiúva, Chopinzinho, Pato Branco, Maringá, Ponta Grossa).

Aposentei-me como magistrado e depois servi ao Município de Ponta Grossa como secretário de Administração e Assuntos Jurídicos, nas gestões de três prefeitos – Paulo Cunha Nascimento, Pedro Wosgrau Filho e Marcelo Rangel de Oliveira.

Fui vereador em Prudentópolis na época em que não havia qualquer subsídio ou pagamento para aqueles que desempenhavam essa função. Colaborei com a apresentação de vários projetos em apoio ao prefeito da época, sr. Gilberto Agibert e, a título de reparação de uma injustiça histórica, fui o autor das iniciativas que mudaram os nomes da avenida principal e da praça onde se localiza a Matriz de S. João Batista: a primeira, passou a ser Avenida São João e a segunda, Praça Firmo de Queiroz, o benemérito fundador de Prudentópolis que, após a Revolução Federalista, obrigou-se a exilar-se nos sertões de Laranjeiras do Sul e cujos restos mortais, quando prefeito, eu os localizei e os trouxe para depositá-los definitivamente na mesma Igreja Matriz.

Na condição de prefeito de Prudentópolis, há pouco mais de 50 anos, lutei com as enormes carências que o vasto Município apresentava, mas sempre com os olhos voltados para as principais prioridades e para a implantação da infraestrutura que era amplamente deficitária. Meus antecessores, todos cidadãos dignos e honrados, também enfrentaram duras batalhas, mas nenhum deles se amesquinhou. Foram, para mim, nos meus 26 anos de idade, um grande exemplo.

Tive como paradigma da administração, uma pequena frase que me fora dita pessoalmente pelo então Presidente da República, general Ernesto Geisel, quando de uma reunião no Palácio Iguaçu, em Curitiba, com os presidentes das microrregiões do Estado (eu ocupava a presidência da região centro-oeste que envolvia Prudentópolis, Guarapuava, Pitanga, Palmital, Laranjeiras do Sul, Guaraniaçu e Quedas do Iguaçu).

Ao apresentar a Geisel diversos projetos de interesse regional, ao fim, ele me disse: ‘você é jovem e encontra-se com vontade de resolver todas as coisas ao mesmo tempo; mas eu o aconselho: num país gigantesco como o nosso, administrar, mesmo as menores unidades, significa saber escolher prioridades, sempre com vistas ao futuro’. Nunca mais esqueci desse ensinamento e foi com base nele que administrei o quinto maior Município dos 399 que o Paraná possui.

A par de providências ordinárias, como abertura e conservação de estradas, construções de pontes e pontilhões, construções de escolas pelo interior e de dois grupos escolares na cidade (Rui Barbosa, na Vila Nova e Canuto Guimarães, em Vila Iguaçú), criei a Banda de Música Cruzeiro do Sul, composta de jovens de ambos os sexos que também recebiam aulas de música gratuitas; instalação e funcionamento da primeira fábrica de tubos de concreto; aquisição de caminhões, motoniveladoras e outros maquinários importantes para as obras rodoviárias; modernização das praças Firmo de Queiroz e Coronel José Durski; construção e ampliação do Lar de Idosos São Vicente de Paulo; incentivo e auxílio na edificação dos Colégios do Rio d’Areia e de Tijuco Preto (que havia queimado); mini postos de saúde em Patos Velhos, Jaciaba e Vista Alegre.

Com um orçamento apertado, centralizei meus esforços na preparação da infraestrutura que, no futuro, possibilitaria expansão e progresso ao município. Nesse caminho, e em parceria com o Governo Estadual, foi construído o novo prédio da Telepar em imóvel do município, com a vinda definitiva do DDD; foi instalada e construída a rede d’água e de esgotos, com a vinda da Sanepar.

Dois problemas, porém, que afligiam a população mereceram um esforço redobrado: primeiro, a construção e a instalação da primeira agência do Banco do Brasil, pondo fim à maratona que empresários e agricultores tinham que fazer até Irati, para encaminhar seus financiamentos. Interesses contrários a isso, se manifestaram. Então, fomos de carro até Brasília e, em audiência com o presidente do Banco do Brasil, coronel Peracchi Barcelos, ex-governador do Rio Grande do Sul, procuramos sensibilizá-lo porquanto a dita agência já estava sendo encaminhada para um outro município paranaense. Conseguimos convencê-lo. Trouxemos a agência do Banco do Brasil e, um pouco à frente, doamos a área urbana para construção do respectivo prédio. Foi uma conquista importante para o município que vivia de pires na mão, sujeitando-se aos interesses de políticos de Irati que só se limitavam a arrebanhar votos nas épocas de eleição.

Outro sério impedimento que limitava a expansão da cidade e a instalação de empresas industriais e comerciais, era a questão da energia elétrica, precaríssima na época, fornecida pela Força e Luz de Irati. Fazíamos pleitos para que a Copel substituísse essa empresa, mas, lá na ponta, nosso empenho resultava frustrado porque interesses políticos se sobrepunham. Daí, na mesma viagem de fusca que fizemos à Brasília (acompanhados dos vereadores José Malamin, Wilson João Copack e de Waldyr Thomé, servidor municipal), levamos extenso dossiê ao Ministro de Minas e Energia Shigeaki Ueki, demonstrando que a cidade se encontrava paralisada e sofrendo nas mãos da empresa concessionária de Irati.

Pouco mais de um mês depois dessa visita, engenheiros do Ministério de Minas e Energia vieram fazer uma vistoria na Usina do Salto Manduri e foram, simplesmente, impedidos de entrar. De qualquer forma, fizeram um relatório e encaminharam ao Ministro que, alguns meses depois, determinou a encampação da Força e Luz de Irati pela Eletrobrás, a qual, de seu turno, repassou o serviço para a Copel.

Porém, um dos pontos principais que inseri na plataforma administrativa e que se encontrava no topo de tudo, era o incentivo e a implantação definitiva da mecanização agrícola e das lavouras de soja nas áreas que para isso eram adequadas. Havia, inclusive, um programa de destoca com um velho trator de esteira da Prefeitura, sempre dentro dos limitados recursos financeiros do Município. Os experimentos pioneiros nessa área, começaram exatamente no ano de 1973, no início do meu mandato. Na Fazenda Despraiado, de propriedade dos senhores Kurt e Adalberto Schlumberger, foram abertos os primeiros trechos de agricultura mecanizada, o que também se fazia na Fazenda Canarinho, em Papanduva de Baixo.

Tenho para mim, no entanto, que a experiência levada a cabo em Linha Inspetor Carvalho, num antigo terreno que fora do Município, adquirido em licitação pública pelo sr. Vilson Santini, que começou o verdadeiro boom das plantações de soja. A área, destocada e tratada, ficava às margens da estrada do Rio Preto e servia de exemplo e modelo aos interessados. Lembro-me, perfeitamente, do dia em que Santini chegou do Rio Grande do Sul com um trator de esteira sobre um caminhão. Parou defronte ao velho prédio da Prefeitura, na Praça Coronel José Durski e, ali, no gabinete do prefeito, assumiu o compromisso de transformar o imóvel que arrematara em exemplo de mecanização e de incentivo a outros agricultores.

Com uma população, na época, de 40.000 habitantes e uma extensão de 2.247 km², Prudentópolis começava a sair da letargia que o mantinha preso, tão-somente, a culturas de subsistência, exploração de ervais, do pinho e de outras madeiras de lei. Isso foi há 51 anos e, a partir dessa nova visão, com a chegada de mais famílias rio-grandenses e com prudentopolitanos que aderiram à ideia, iniciou-se a grande e paulatina transformação que hoje coloca o município em posição de destaque no cenário agropecuário do Paraná e de exemplo na adoção de técnicas e equipamentos de última geração. Uma mudança que veio na hora certa, embora a longo caminho a ser palmilhado, como o são todas as transformações de estruturas já enraizadas.

Vejo, agora, um trecho do discurso que proferi como prefeito, no dia do Município (12 de agosto de 1975), na Praça Firmo de Queiroz: ‘As terras de nosso município, antes tidas como fracas, montanhosas, quase imprestáveis à agricultura, hoje são redescobertas. Áreas apreciáveis já se encontram destocadas e o nosso ruralista volta-se para a completa mecanização de sua lavoura… Prudentópolis, com quase 70 anos, começa a se emancipar, a ter vida própria, alimentada pelo trabalho incessante de seus filhos… Dentro de alguns anos, será uma das mais prósperas cidades do Paraná…’

E assim tem sido.”

O QUE PRUDENTÓPOLIS SIGNIFICA PARA MIM?

Para mim, Prudentópolis significa berço, pertencimento, fonte dadivosa onde me dessedentei. Lugar que amo, como amo meus pais, avós e irmãos que se encontram repousando no Cemitério Municipal. Foi aí, mormente no Colégio Imaculada Virgem Maria, que recebi os primeiros frutos formadores do caráter, da retidão e do trabalho, ao som dos sinos das três Igrejas e do falar eslavo de seu povo simples e acolhedor. Em minhas atividades literárias, ao longo de vários livros escritos, tenho sempre presente o que eu vivi e aprendi em Prudentópolis, desde a infância até à maturidade. E agora, no outono da vida, revejo sempre as colinas verdejantes que enlaçam a cidade, os seus rios e cascatas, as terras úberes do triângulo feliz  que vai de Patos Velhos a Jaciaba.

Josué Corrêa Fernandes

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