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Faxinal dos Francos: terra dos ervais, pinhais e faxinais

Nós via o Zambão, dia por dia, puxar toras de pinheiros e imbuias com um carroção de oito cavalos. O carroção tinha mais ou menos: 4,50 m de comprimento, 2,50 m de largura e 1,20 m de altura”, conta dona Gema.

Assim era a lida, nos anos 60, do senhor Zambão na comunidade rural de Faxinal dos Francos, no município de Rebouças.

Gema Dalagnoll nasceu no Rio Grande do Sul há 85 anos e está há mais de 60 anos no Faxinal dos Franco. Conta que vieram com a família para buscar uma vida melhor no Paraná.

Narra que no início tudo foi muito difícil. 

“Havia mata fechada para derrubar para poder fazer a morada e plantar as roças. O primeiro rancho foi feito com as árvores derrubadas. Apenas dois quartos, um corredor e uma peça para cozinha. Tudo de chão batido e sem forro. Na cozinha, tinha uma viga no alto com uma corrente pendurada que segurava uma trempe em cima do fogo para fazer nossa comida”.

Faxinal dos Francos há 50 anos tinha mais de 500 casas de moradores. A maioria trabalhava para o seu Jango Anciutti. Uns cortando madeiras para serraria, outros tirando erva-mate e outros fazendo roça. Hoje, a população diminuiu. 

O lugar foi um faxinal com as criações todas soltas. Os animais ficavam soltos, mas à tarde voltavam sozinhos para casa. Dava até preguiça de ir até a cidade de Rebouças de tantos portões e mata-burros que existiam. Isso para segurar a criação no grande faxinal. 

Os porcos, cavalos e bois passavam por essa região e eram tocados pela estrada até São Mateus do Sul. A vida era dura mais as pessoas eram bem mais unidas. Nos natais, a família era reunida, se matava porco, fazia cerveja de casa, vinho caseiro, era uma festa de três dias seguidos”.

Em entrevista com outro morador, o senhor José Rufino, que vive desde que nasceu em Faxinal dos Francos, município de Rebouças, há 68 anos. Narra os fatos abaixo.

Ele conta sobre seu antigo patrão: “o seu Jango Anciutti era proprietário das terras desde o Riozinho até o Salto”. O italiano era dono de olaria, serraria, criação e um grande armazém de mercadorias. Hoje, eu ouvi dizer que a família pouco tem de propriedades. Eu, meu avô e meu pai trabalhamos para ele. Seu Jango trazia bando de cabritos para criar aqui. 

Vinham num carro Ford, tipo pé-de-bode, com uma porção de pessoas e cachorros caçar veado. Nessas ocasiões pediam para meu avô matar um cabrito para todos comerem à tardinha.

Nós trabalhávamos a semana inteira, pegava o vale e ia gastar no armazém do seu Jango lá no Riozinho. 

Seu Anciutti era um bom patrão. Aquele homem ajudou bastante gente. Onde se via tinha casas que ele deixava pros camaradas morar. Era uma vila de mais de 50 casas. Tudo dele! ”.

João Batista Anciutti chegou da Itália em 1907. Adquiriu uma extensa área de terras em Riozinho, Irati, construiu uma serraria. Tornou-se um dos maiores comerciantes de erva-mate da região. Foi o principal responsável pela colonização da região em torno do Riozinho. (Irati – 100 Anos, Ed. Arte, Audrey Farah, Chico Gil, Silvio Philippi).

Rufino diz ainda: “trabalhei também na empresa Gralha Azul, que também foram terras do seu Jango. A Gralha Azul era de um parente do seu Jango, o Luiz Pessoa. 

Lá, tinha um gerente muito ruim e metido a valentão. Xingava e ameaçava os camaradas. Cutucava a barriga dos outros com o punhal. O dele era só andar a cavalo sondando as mulheres que estavam lavando as roupas na beira dos rios. 

Certo dia, chovia muito e, para não se molhar, nos escondemos. Numa parada da chuva, nós estávamos escondidos debaixo da lona e veio o gerente perto de nós e logo foi xingando. O vadiuzada vocês não vão trabalhar? No que eu armado de um facão o escorei. Dali em diante, ele não mexeu mais conosco. E acabou morrendo atirado por um rapaz que ele desafiou”. 

“Sofremos bastante na vida. Quando crianças eu e meus irmãos não tínhamos calçados. Íamos para a escola com os pés descalços, rachando na geada da grama. 

Depois do almoço, ainda pequenos, íamos trabalhar cortando taquaras. Era tão fechado o taquaral que era fácil se perder no meio delas. Preparávamos as quartas de terreno para depois fazer as plantações. 

Seu Jango nos deixava plantar feijão no meio das taquaras. Era o feijão Costa Rica que crescia tipo cipó. Sem falar da quantia de pinheiros que havia no lugar. Dava para catar e vender muito pinhão.

Também se lidava com muita erva-mate. Nós cortávamos a erva, sapecava no mato, trazia pro rancho e secava melhor no carijo, cancheava e depois cortava com o facão”.

O processo do fabrico da erva-mate para chimarrão consiste basicamente de três etapas: sapeco, secagem e cancheamento. O sapeco era feito perto do fogo e passava rapidamente os ramos com folhas sobre as chamas do sapecador. O sapeco fazia que a erva-mate ficasse cheirosa e esverdeada.

“Fomos criados pelo nosso pai para não bolir nas coisas dos outros. Mesmo com necessidade nunca roubamos nada. Melhor pedir do que roubar”. 

Aquela gente da antiga era assim, muito positiva na opinião. Para eles, uma coisa era boa ou ruim, preta ou branca, decente ou indecente. Não conheciam meio termo.

“Mas, não dá para se queixar de nada de nossa vida do passado! Tamo aqui vivos e criamos nossos filhos que ainda tem respeito e até pedem benção quando chegam até nós”.

Rufino trabalhou, depois, ainda por 33 anos para o senhor Aureliano Dalagnoll.

Conta, ainda: “com o tempo para os pequenos agricultores só restaram poucas terras e ainda por cima a maioria eram pedreiras. Nesses lugares não tem como lidar com cavalos nas roças. Os grandes chegaram a cobrir as pedreiras com terra para plantar. O rio daqui virou sanga. Antigamente, dava para pescar ali. Com a destoca das terras, fecharam o rio e com as lavouras é só veneno nas águas”. 

Outra moradora que concedeu entrevista, através de sua filha Zeni Aparecida Andrade Vichinisrki, foi dona Maria Zizi dos Santos Andrade, 93 anos, nascida em 27/01/1929, conta que quando criança o Faxinal dos Francos era um grande pinhal e erval. “A gente se perdia no meio da floresta de pinheiros e de ervais”, diz dona Zizi.

Lembra que a família Bortoleto possuía um moinho para fazer farinha de trigo, fubá e quirera. E que a bodega do Jacondo Sabin era em outro lugar, mas já existe há mais de 60 anos. Hoje está na beira da rodovia que liga Irati a São Mateus do Sul.

Segundo Sandra Aparecida Zambão que, com Célia Dallagnos e Maria Denoze, pesquisou sobre a localidade e juntas publicaram um trabalho sobre o Faxinal dos Francos: “os primeiros gerentes da serraria dos Anciutti foram o senhor João Saqueto e depois Pedro Pianaro e o senhor Caetano Castagnoli trabalhou como estaleirador. 

Conta ainda que no local haviam duas canchas de moer erva-mate, uma do senhor Jango Anciutti e outra do senhor Gelindo Zambão.

Na pesquisa fala que o primeiro armazém da localidade foi de propriedade de Atílio Angelo, o segundo de Pedro Pianaro e o terceiro de Jacondo Sabin, que existe até hoje e está nas mãos de da filha Maria Lidia Sabin.

Ainda se certificou da existência de alguns monjolos, movidos a água e que fabricavam farinha de milho”. 

A economia do lugar anteriormente consistia-se da extração do pinheiro, imbuia, erva-mate e de lavouras de milho, arroz, feijão e batata. Atualmente, praticamente se planta somente a soja e o trigo.

As famílias mais antigas citadas pelos entrevistados são: Ramos, Andrade, Vieira, Candeo, Santos, Pedroso, Gabriel, Sabin, Bortoletto, Pianaro, Dalagnoll, Zambão, Zampier, Mósele, dentre outras. As grafias podem conter incorreções, pois assim que nos foi falado.

A localidade situa-se ao sul da cidade de Irati a uma distância de 23 km e de 14 Km de Rebouças. As comunidades mais próximas são: Riozinho dos Santos, Salto, Poço Bonito, Marmeleiro e já no município de Irati o Riozinho.

Recordar o tempo desses moradores da área rural é sempre prazeroso. Traz surpresas, contudo um respeito tremendo pela luta que tiveram diante de tantas adversidades que eles passaram.

Dagoberto Waydzik

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