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Trajetória

Maria Flor

Os primeiros raios solares apontavam  no horizonte e desta vez não seria tão difícil atravessar a pinguela que cruzava a sanga que dava acesso à estrada grande. Maria Flor e o pequeno Davi faziam sempre esse caminho, que era mais curto, tanto nas frias madrugadas de inverno, quando a geada lhes queimava a cara e congelava às
mãos, na quebrança de erva mate, como no  nal da primavera, quando iam juntar batatinha ou cebola.
Sem renda  xa, ela trabalhava pordia. O menino segurava  rme, com  suas magras mãos, uma mochila com a marmita dos dois. Às vezes a comida azedava, devido ao calor, mesmo assim comiam com voracidade. Nesse dia, ele caminhava afobado, pela lembrança do vento batendo em seu rosto em cima do caminhão.
Chegado ao ponto, subiu como um gato na rabeira do caminhão que levava os diaristas. Maria Flor, ressentida consigo mesmo por ter feito o piá perder à escola, sentiu vontade de se embrenhar na escavação abaixo dos
seus pés e sumir desse mundo cão. Lembrou com culpa a conversa da noite anterior. Filho, a mãe vai precisar de
você na lida, amanhã. As dores de sempre na minha escadeira, não me deixaram render o eito. Perdi feio pra nhá Cotinha que é mais velha que eu.

_ Vou sim, mãe. Depois copio a lição do Zezinho. A mãe  tou os olhinhos do  – lho, cor de âmbar. Eram eles que tiravam, muitas vezes, ela das trevas e a traziam para a luz. Desde o dia que o marido havia lhe trocado pela sua irmã mais nova, Maria Flor, catou o menino pelas mãos e saiu sem rumo. Em terras de faxinais, encontrou
um pequeno cômodo desocupado e, ali se instalou com Davi. Em frente da porta,  cava o fogãoà lenha feito de barro que bufava sempre. O fogo não podia apagar, fósforo era muito caro.
Quem fez o fogão, havia o deixado muito próximo à parede, por isso era necessário jogar água nas
tábuas para não incendiar. A janela era miúda como a humilde casa. Nas noites de inverno,  as frestas raivosas lutavam contra o frio para que esse não entrasse, defendendo os dois ocupantes das rajadas de vento.
No outro lado da parede, havia uma tarimba velha com uma coberta de pena. Era o leito de mãe e  lho.Davi dormia nos pés da cama improvisada, para dar mais espaço ao corpo cansado da mãe.
Ela tinha uns quarenta anos, mas sua pele parecia quebrada, dando- lhe um aspecto de bem mais velha. Era o sofrimento maquiando seu rosto. As paredes do casebre tinham como única pintura a picumã do  fogão que escurecia mais ainda o pequeno espaço. Sem energia, Davi fazia as tarefas na boca do fogão. As labaredas
eram a sua luminária. Entre a cama e o fogão, uma mesa renga se esforçava para sustentaràs poucas tralhas que tinham. O banho era na nascente, atrás da casa,  zesse calor ou não. Quando uma tempestade vinha forte, os dois eram abraçados pelo casebre, que, como um pai, protegia seus  lhos.

Assoalho não havia, era de chão batido. Mas Maria Flor e Davi  zeram uma mistura de barro do rio e esterco de vaca. Assim ele  cou liso e com um tom esverdeado. A pobreza só não era maior que o zelo e o capricho naquele minúsculo lar.
Na frente da casa, não havia nenhum cisco ou matinho. O chão, varrido com vassoura do mato, anunciava que ali não era apenas um lar, era o palácio dos dois.

Jele Cabral

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